No prefácio do livro "A Necessidade da Arte", de Ernest Fischer, Antonio Callado diz que de dia para dia a vida humana torna-se cada vez mais complexa e mecanizada, dividida e subdividida em classes e interesses. Tornando-se independente da vida dos outros homens, esquece-se daquilo que completa e une os seres humanos: o espírito coletivo.
               
               A fé, o amor e a paz são os anseios vitais do homem deste século. Mas enquanto se vê capaz de dominar a ciência e a tecnologia, afasta-se sempre mais do seu semelhante, sentindo-se-lhe escassearem as mais simples condições de vida. Desde o início dos tempos, lutando contra a complexidade e a mecanização humanas está a Arte, elemento da vida espiritual de todos os povos, em todas as épocas. Configurando-se como a atividade que exprime cultura, sensibilidade e tradição, condicionada pelo seu tempo e representando a humanidade segundo idéias e aspirações, necessidades e esperanças, a Arte permite às comunidades explodirem seu poder criativo em várias manifestações.
               
               Entre essas está a Música, de todas as artes aquela com maior força de igualar pessoas, pois é nela que compositor e executante, criador e intérprete, entrelaçados, projetam sentimentos e idéias que, ao atingir os espíritos sensíveis, criam uma emoção além-tempo, inserida, porém, no momento histórico vivido.
               
               Parafraseando o musicólogo francês Maurice Fleuret (1902-90), nunca se compôs, se descobriu, se tocou, se difundiu e se ouviu tanta música, de todos os tipos, como hoje. A cada instante, o ouvido é solicitado desde os pontos mais distantes no espaço e no tempo, nutrido de referências, saciado de novidades, submerso pela torrente de sons jorrando por toda parte, contrariando, assim, previsões muito pouco agradáveis de alguns anos atrás, pois a música dita enlatada não desvalorizou a música dita viva; ao contrário, multiplicou os concertos, os recitais e os espetáculos, suscitando a criação de inúmeras instituições profissionais e permitindo o desenvolvimento de uma prática amadorística, cuja extensão a todas as camadas sociais se tornou o grande fenômeno dos últimos anos.
               
               "A criação artística não é o ornamento da sociedade, é a consciência" —la création artistique n'est pas l'ornement de la société, elle en est la conscience1 —, fazendo com que diante dela, o homem se veja face a face ao dilema do amor ou do ódio, do enlevo ou da repulsa.
               
               Este site, isento de amores ou ódios, desvinculado dos enlevos ou das repulsas, geralmente originárias nos preconceitos, não privilegia nenhum tipo de compositor, escola, estilo ou época; apresenta tão-somente o que foi feito em termos de Arte Musical, atravessou o tempo e permaneceu, pois afinal "ao que a música nos chama é difícil de saber; o que é certo, é que ela toca uma zona tão profunda que a loucura ela mesma não saberia penetrar" — à quoi la musique fait appel en nous, il est difficile de le savoir; ce qui est certain, c'est qu'elle touche une zone si profonde que la folie elle-même n'y saurait pénétrer.2
               
               Cultuando a Arte, "em suas origens magia e auxílio mágico à dominação de um mundo real inexplorado"3, que através da Música realiza a sua grande meta que é a de embalar ou despertar, jogar com sombras ou trazer luzes, tendo sempre sua essência concernente ao homem total para capacitá-lo" a incorporar a si aquilo que ele não é, mas tem possibilidade de ser"4, o homem, "que se tornou homem pelo trabalho, que superou os limites da animalidade transformando o natural em artificial, que se tornou um mágico, o criador da realidade social"5, será "o mágico maior, será Prometeu trazendo o fogo do céu para a terra; será sempre Orfeu enfeitiçando a natureza com a sua música".6
               
               Refundido e são, ver-se-á, então, incitado à permanente escalada de si mesmo.


Cécil Braga e Chaves
São Paulo, abril 2004

_____________

1 - Fleuret, Maurice - Chroniques pour la musique d'aujourd´hui
Coutaz
Arles, 1990

2 - Cioran, Emil - De l'inconvénient d'être né, in Oeuvres
Gallimard
Paris, 1973

3 - Callado, Antonio - prefácio in "A Necessidade da Arte" , Fischer, Ernest
Zahar
RJ, 1971

4 - id. ib.

5 - id. ib.

6 - id. ib



Voltar ao topo



Web-Design by OleSchmitt